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Gyoji, a prática incessante

Seshin de Rohatsu de 1986

por Ryotan Tokuda

"Os rostos originais dos Buddhas e Patriarcas não podem ser vistos. O rosto original, ossos e medula dos Buddhas e Patriarcas também, como também não parecem ir ou vir. Devemos examinar a prática incessante de um só dia. Portanto, cada dia é precioso. Se vivermos em vão durante 1.000 anos, acabamos nos aborrecendo com os meses e os anos. Isto é um tris-te desperdício de tempo. Mesmo 1.000 anos de escravidão dos sentidos são redimidos por um só dia de prática incessante. Uma vida corporal de um só dia é a possessão mais valiosa de todas. Portanto, se vivermos somente um dia e possuirmos a função de todos os Buddhas, um dia é mais útil que reencarnar durante incontáveis vidas. Por isto, se o problema da vida e morte não foi decisivamente resolvido, não devemos desperdiçar um só dia sequer. Um só dia é um grande tesouro a ser altamente cotado, é melhor, muito melhor que um pe-daço de jade ou as jóias de um dragão. Sábios do passado contavam um só dia mais que seus próprios corpos e mentes. Devemos refletir calmamente sobre isto. E descobrimos algo de mais precioso que a jóia que concede todos os desejos ou riquezas. Mesmo um só dia em uma vida de cem anos não pode ser devolvido ou tomado de volta. Existirá algo que possamos fazer, alguma ação, algum método para que o recuperemos? Tal não existe. Se desperdiçamos tempo, somos enredados como a pele enreda o corpo. Santos e sábios davam mais valor a cada dia e a cada mês que às suas próprias vida e ao seu país. Se o tempo for desperdiçado, seremos cativados pelo status e pela fortuna do mundo impermanente. Se evitarmos, viveremos no Caminho. Se tivermos determinação, não passaremos um só dia inutilmente. Pratiquemos e proclamemos o Caminho! Portanto, tenha em mente que os Buddhas e Patriarcas não gastam um dia sequer em prática inútil. Durante os dias tranqüilos de primavera, sentemos perto de uma janela cheia de luz e reflitamos sobre tal. Em noi-tes de outono, de chuva fina, fiquemos em um choupana simples de floresta e nos concentremos na prática. Sentimos falta de tais tesouros porque não temos a prática. Como pode a virtude da prática ser tempo roubado? Nada nos é roubado. A virtude de muitos kalpas é roubada? O que causa o conflito entre o tempo e nós mesmos? O ressentimento, porque a nossa prática é insuficiente. Não devemos nos permitir sermos condescendentes demais conosco mesmos. Isto causa auto-ressentimento. Os Buddhas e Patriarcas também têm ligações de gratidão e de amor. Eles, contudo, as abandonam. Eles têm muitos relacionamentos, mas os abandonam. Mesmo que lamentemos, não podemos nos aborrecer com nossas relações com os outros. Se não cortarmos os liames de gratidão e de amor, os laços de gratidão e de amor nos cortarão fora. Se temos apegos com a gratidão e com o amor, devemos assim proceder. Ter apegos nos mostra que devemos cortar tais coisas.


Esta é a continuação do capítulo do Sobogenzo , capítulo Gyoji, a prática incessante. Aqui, vamos passando rápido, ele está falando sobre a importância da prática. Como se estivesse dizendo: falar sobre Zen, depois de algumas leituras, uma pessoa inteligente consegue falar, por isto existem vários tipos de Zen. O "Zen de salão" para os ocidentais. Às vezes leram alguns livros sobre o assunto e gostaram muito. Parece piada, né? Koans, etc., estas coisas são impressionantes! Fica-se impressionado e narra-se estas coisas num salão qualquer de sociedade. Com as damas, tomando café, tomando chá, batendo papo, e aí falando sobre Zen. "Isto é Zen!" Parece muito bonito, mas o fato é que nada tem a ver com ele. Por isto, às vezes precisamos em vez de boca, falar com o corpo. A boca pode mentir. Mas o que corpo está fazendo é que esclarece as coisas completamente, ao invés da fala. Então, pratiquemos quietos, mas sem cessar. O praticante Zen falante, principalmente durante o sesshin, guarda o silêncio com aquela cara... Mas se começa a falar muito, então prejudica não somente a si mas aos outros também. Depois do seshin pode-se falar, ao terminar o retiro. Assim é o Mosteiro Zen e a prática com os colegas. Depois, aqui no texto, fala-se sobre o tempo, sobre a impermanência; nós os sentimos muito pouco em muito poucas ocasiões. Quando há jovens, eles não entendem o sofrimento dos mais velhos. Quando se tem saúde, não se entende o sofrimento dos doentes. Quando tem-se força, saúde e beleza, tem-se orgulho e vaidade e não se entende o sentimento de outras pessoas. Mas estas coisas todas não dependem de si mesmo. Apenas acontecem, mas isto não é algo que dure para sempre. Logo depois... até ontem era um rapaz moço, mas hoje já está de barba branca. Isto nunca mais se pode ter de volta. Todos sabem disso. Mas sentir na al-ma, poucos podem.

Mestre Dogen coloca os quatro tipos de cavalos: 1) O que vendo a sombra do chicote, já começa a cavalgar; 2) O que o chicote tem que tocar a pele; 3) O outro cavalo, o chicote tem que cortar até a carne; 4) O último, o chicote tem que cortar a carne e chegar até o osso, senão, ele não sente. Isto significa que quando a pessoa encon-tra a morte num jornal todos os dias, é um problema dos outros. Mas se encontrar a morte de alguém mais próximo, lamenta-se: "Ele era jovem, não deveria ainda ter morrido." Depois, quando é um parente, pessoas mais íntimas, sente-se, sente-se muito e se chora. Mas depois de algum tempo, se esquece novamente. Agora , ele é aquele cavalo que só sente quando o chicote corta a carne ou o osso quando chega o seu momento. Tem que morrer amanhã. Não adianta. E assim temos os quatro tipos de cavalos.

Neste caso, o Buddha Gautama era uma pessoa muito sensível. Apesar de ser um príncipe, estava passando na ci-dade e vendo tudo. O Rei, seu pai, preocupado, lhe falou: "Vá passear para se divertir." E passeando, ele encontrou um velho. "Quem é este?" Um camarada respondeu: "É um velho!" Com as costas curvadas, não conseguia andar, era um velho. "O que é velho?" "Ah, todo mundo fica velho com a idade, ninguém disto escapa." "E eu também vou ficar assim?" "Pois é claro que sim! Aqueles que são nascidos, envelhecem." "Ahhh!" Sentido, ele voltou ao palácio. No dia seguinte, passeando por um outro lado, se deparou com um doente sendo carregado, suportando dores, e perguntou novamente: "O que vem a ser?". "Isto é um doente". " O que é um doente?". "Enquanto temos físico, ficamos do-entes". "Então eu também vou ficar assim?". "É claro! Como todo mundo". Isto é muito simbólico, mas ele, perfeito, com saúde, jovem, viu a doença e o envelhecimento dentro de sua juventude. Encontrando com mortos sendo conduzidos ao cemitério: "O que é isto?" "Isto é a morte." "O que é a morte?". "O que é a morte? Todo mundo morre, nasce e morre." . "Eu também?". "Claro, todo mundo morre". E a quarta vez, saindo do castelo, encontrou-se com um monge, andando tranqüilamente. "Quem é este?". "Este é um monge". "Ah, talvez este seja o meu caminho". E assim o jovem príncipe estava traçando a direção de sua vida. Abandonar, renunciar. Até um dia sair do castelo. Este relacionamento amoroso, pessoal mais forte, pai e mãe, esposa, filho,etc., é uma coisa bonita, mas ao mesmo tempo agarra e amarra. Existem leigos que vivem sozinhos, solteiros.

Hoje em dia monges também podem casar. Mas antigamente, realmente se dedicando ao Caminho, todos pelo menos uma vez cortavam todas as relações. Este tipo de coisa é muito difícil. Existem koans para isto: " o dedinho mindinho". O dedinho está amarrado com uma linha de costura, uma linha vermelha. Porque é que não se pode cortar a linha? O koan é este. "Porque não se pode cortar uma linha vermelha?" Puxando um pouco se pode romper esta linha. Aqui existe um relacionamento com as pessoas. Cortar requer for-ça. Mas havendo sentimento, desligar-se é difícil. É realmente difícil. Mas o mundo é assim. Na vida de monges, se renuncia. Abandona-se. Neste momento é a própria força ou a força dos outros. Um fio vermelho significa a relação com a família, a mulher; é real-mente difícil cortar. Mas o tempo que é tão precioso é uma coisa do mundo, mundana... Por isto, uma vez despertado surgirá esta necessidade. E quando sentir, aí surgirá o impulso de tudo largar. O trabalho, suas tarefas e funções; mas a barreira é sempre este relacionamento mais íntimo... Esta questão é mais para monges... Hoje em dia, os monges casam, mas eu digo que o casamento de um monge não é um casamento qualquer. Claro, todo mundo é assim, principalmente monges, não é uma questão de casar por acaso. Tendo-se uma certa idade, aí se deseja casar. Por que casar? Porque ficar sozinho é muito chato. Fica-se solitário. Ou talvez para alguns seja uma questão de confiança dada à sociedade. Isto é a resposta, o casamento. Mas não, aqui se trata de um amor mais profundo. Depois disto, existe alguém mais além, e isto não é por acaso. Aqui são poucos os monges, mas despertando, assustam-se com alguma coisa mais profunda, talvez a impermanência. Quando se está realmente com este sentimento, uma energia enorme leva-nos em frente.


De certa maneira, as pessoas se tornam enfim escravas dos cinco sentidos. Comida boa, escutar música, ver coisas bonitas, ler livros preciosos, arte, teatro. Mas o que acontece é que o tempo passa tão rápido que assusta. Se morrer aos setenta, oitenta anos, até que tudo bem, mas às vezes morremos tão jovens, até os bebês podem morrer. Neste momento nós realmente reagimos: "O que é isto?". O monge Ikkyu, muito cínico, andava com um crânio na ponta do bastão de peregrinação durante o Ano Novo. O ano Novo no Japão é como o Natal aqui. Aqui todo mundo fala "Feliz Natal"; ou então, "Feliz Ano No-vo". Mas porque razão "feliz"? Completando o ano, a morte está chegando mais perto. "Ah, não fale isto sobre o Ano Novo! Ano Novo é uma coisa boa, você está falando em morte? Por favor, fale uma coisa alegre, mais agradável." Então ele disse: "Primeiro morre o avô, em seguida morre o pai e em terceiro lugar morre o filho." "Ah, morre todo mundo?" . "Sim, mas morrendo nesta ordem, avô, pai e filho, está muito bom. Se o filho morrer primeiro do que o pai ou o avô, isto seria uma tristeza". Por isto, os monges para sentirem a impermanência, faziam certos tipos de meditações no cemitério, vendo cadáveres; quando vinham desejos sexuais, iam lá e olhavam. Viam os corpos e os cadáveres.

Na Índia jogavam-se os cadáveres no cemitério, não enterravam, não faziam cremação. Aquela moça bonita morreu, ela ainda pode despertar desejo, mas logo depois, um dia, quando está quente, não leva nem 24 horas, começa a correr líquido, um sangue meio aguado, e começa a inchar e a mudar a cor, vermelho meio roxo, manchas; se morreu acidental-mente com água ou com fogo é mais terrível. Como eu sou monge, já encontrei vários tipos de mortes. Fui várias vezes ao Instituto Médico Legal. É uma coisa terrível. Os corpos ficam nas gavetas, na geladeira. Totalmente nus. E geralmente todo mundo está cortado de cima abaixo e mal costurado. Todos iremos para lá. Não importa se ricos ou pobres. Nem se é inteligente, não importa, tem que passar por lá, tirar todo a roupa e so-mente uma etiqueta no peito. Este corpo cheira, cheira, e passa lá um dia, três dias, uma semana... com mau cheiro. Comendo depois peixe assado, grelhado, a carne não entra mais na boca. É o mesmo cheiro, nós nos lembramos. A carne, coisas inchando e começando a abrir, com bichos; começam a vir moscas, aparece o osso, um cachorro vem e leva um pedaço. Daqui a pouco vem o vento e leva tudo. Neste momento, com o que você está apegado? Este é o outro lado da realidade. Aí vem aquele susto, a questão: "O que é a vida e o que é a morte?". "O que é o amor?". "O que é a eternidade?". "O que é o absoluto?". Estes tipos de perguntas, quando uma vez surgem, não passam mais. Se não resolvemos este sofrimento espiritual, não encontramos a paz. Mas raramente este tipo de questionamento acontece, porque neste mundo há tanta coisa bonita, tanta coisa boa, tanta coisa divertida.

Um viajante encontrou com bichos, uma onça, um tigre, leões, panteras; aí fugiu para dentro de um poço que ele por acaso descobriu. E se segurou ali dentro em um cipó; quando olhou para baixo, havia um outro bicho, uma serpente venenosa, esperando de boca aberta. Desesperado, segurava apenas a corda. E aí apareceram dois ratos, um branco e um preto, e começaram a comer o cipó. Quando acabaram de roer, ele caiu. E lá no fundo do poço encontrou uma flor aberta, que deixava cair néctar; aí ele recebeu o mel com a língua: "Ah, que doce!" E naquele momento o viajante esqueceu todos os perigos. O que é isto? Estes quatro bichos são os pontos cardeais, são os quatro sofrimentos: 1) a vida é sofrimento, 2) o envelhecimento é sofrimento, 3) a doença é um sofrimento, 4) e a morte é um sofrimento. E o cipó, ao qual ele estava agarrado, é o tempo; o dia é o rato branco e a noite é rato negro. Dia e noite. E os outros animais... A flor no poço o que é? A flor é a vida que dá as sensações para satisfazer os desejos: comida, música, estes tipos de desejos de bens materiais, sexo, etc, etc. Os jovens estão procurando alguma coisa, mas não sabem o que. Não sabem onde encontrar. Sexo, suspense. Com estas sensações instantâneas, estão esquecendo certas coisas e, inconscientemente, estão querendo fechar os olhos para outras. Então, cada vez mais estas outras coisas são mais fortes. Com isto eles querem esquecer a realidade. Mas quem despertou não pode esquecer. Naturalmente, sozinho ele começa a se afastar das pessoas e começa a meditar sozinho. Porque dentro dele aconteceu alguma coisa errada. Alguma coisa errada. Com o que realmente se pode contar? Começa a pensar: sobre seu pai, dinheiro, casa, carro, esposa, filho. Para certas pessoas a resposta é positiva: "eu tenho dinheiro, eu tenho casa, eu te-nho pai." Mas para alguém mais esclarecido, realmente com que se pode contar? Nem a nós mesmos podemos conduzir livremente. Tudo despende uma força enorme. A isto se chama impermanência. Nós batemos o han, o han é um tambor de madeira, não sei se vocês notaram, primeiro bate-se sete vezes com o mesmo distanciamento entre cada batida, depois carreira rápida, depois bate-se cinco vezes, depois carreira, depois três vezes mais. E assim o nosso tempo é cada vez menor: 7,5,3,1,0. Zero. Zero! Quando é zero é a hora do adeus. Aí se vai embora. Falando desta maneira, as pessoas podem pensar: "O Budismo é tão pessimista! Por isso que eu não gosto. Tem cheiro de morte". Mas não é. Para realmente vivermos neste mundo, pelo menos uma vez ou outra, ou em alguma ocasião, é bom pensar um pouco. Pensamos que temos muito tempo pela frente. Não! Metade já se foi, passou. 2/3 já se passaram. Dentro da história japonesa, dentro da literatura, há uma pala-vra, go-avai, que significa: as coisas lamentáveis deste mundo. Sentindo a impermanência, mais lamentável ainda. É um sentimento. Mas esta filosofia quando chega a ser mais profunda, através dos monges Zen, fica ainda mais acentuada. Como eu expressei, vendo as coisas que vi no limite deste mundo, até onde se pode gozar?


Ainda temos um pouco de tempo. Têm perguntas, sobre este assunto?... É por isto, dentro da história do Zen, que os monges abandonam suas famílias. Isto é perigoso. Este pensamento e esta filosofia, são muito perigosas hoje em dia, para os jovens principalmente, que tão facilmente se separam. Antigamente, o Sexto Patriarca cuidava de sua mãe com muito amor e ainda assim abandonou tudo. Difícil de abandonar e abandonou. É isto. Não é como hoje, que as pessoas estão tão pouco ligadas, tão irresponsáveis. Não é neste senti-do. Por isto, se for uma pessoa qualquer, então não deve brincar, "ah, eu agora sou monge!". "E agora novamente vou voltar a ser leigo!". "Ah, não deu certo, então eu sou monge novamente". É desta forma que as pessoas estão brincando, quando na verdade isto é uma coisa muito séria. Por isto até agora, os grandes mestres são realmente heróis. Cor-taram aquilo que não podia ser cortado. Por isto naturalmente, o treinamento deles dentro do mosteiro é diferente dos demais monges. Porque cobram de si mesmos e dos outros também as situações e as mudanças bruscas. Tem que ser sério mesmo. É assim a teoria que diz que nós devemos dedicar 99% ao treinamento; agora cortando, depois renunciando ao mundo. Amor todo mundo tem, mas este amor é limitado, apenas à sua esposa, apenas ao seu próprio filho; se o filho brigar com o filho do vizinho, em seguida começa a briga dos pais. Falam muito também, especialmente os militares, em amor à pátria, e o que é o amor à pátria? Amar a sua pátria... então começa a guerra, e gritando no campo de batalha, os filhos se vão. Vejam o resultado da Argentina: a guerra das Malvinas. É o amor limitado a si mesmo ou aos vizinhos, pátrias, estados; mas o verdadeiro amor é muito mais, uma coisa universal. Os monges, cortando estes amores particulares, penetram no amor universal ou fraternidade, uma coisa maior, e vivem neste mundo mais amplo. Esta é a missão dos mon-ges. Não é apenas fugir da responsabilidade deste mundo. Vem agora uma outra espécie de responsabilidade de não acabar com este treinamento, a prática incessante de todos os Buddhas e Patriarcas que chegou até nós. Neste caso, isto se chama grande compaixão, já não é mais amor. É grande compaixão. É em cima disto que monges vivem. Se os monges não a tiverem, apenas quiserem ganhar uma iluminação particular, sabedoria, não terão verdadeira compaixão. No fundo, no fundo, há que se ter esta grande compaixão. Neste caso, ela não tem limites de espaço, ocidente ou oriente, sul ou norte, um país ou outro país. Não tem esta diferença de país, distância, de espaço e não tem limite de tempo, passado, presente e futuro. Aquele amor de Jesus Cristo, até agora vive. Quantas pessoas foram salvas com isto? Buddha, Confúcio, Sócrates, estas grandes figuras da humanidade, apareceram, sacrificando as suas vidas particulares e se ofereceram a todos os seres e, com isto, estão numa outra dimensão, num outro nível de pensamento, ajudando fora das coisas do mundo, em outro mundo sagrado. Este é o mundo do Dharma, como nós o chamamos; neste caso, a grande compaixão sem limites cobre tudo, todos os seres humanos, todos os seres viventes, inclusive as plantas. Esta é a filosofia fundamental budista, por isto este trabalho ecológico, com o meio ambiente, voltado para a natureza, no fundo está baseado nesta filosofia; não somente seres humanos, mas o amor, a compaixão, alcança até os bichinhos, até as plantas. Não matar, mas dar a vida pelas coisas, até as coisas materiais, insensíveis, até os bens materiais. Até isto: dar a vida até por estes objetos. Se maltratar, isto quebra, precisa então consertar. Mas se tratar bem, este relógio funciona por anos e anos sem quebrar. Então está se dando a vida, para o gravador, para o cobertor, colchões, esteiras, tapetes, etc, tudo. Não matar, significa dar a vida para as coisas. Então, deste jeito, mudam-se todos os conceitos e muito mais além ainda, mais além. Então, este amor sem limites cobre tudo, passado, presente e futuro e o espaço também, e ainda é incansável. Incansável, significa que es-tamos querendo ajudar e salvar, mas não querem aceitar, porque estão bêbados e estão adormecidos. Queremos ajudar, mas não aceitam, porque estão apegados às coisas do mun-do, não escutam, não reconhecem. Não desanime, não pare, vá, vá, mesmo com muito sa-crifício e muitas dores, mas não canse, vá, constantemente. As pessoas não têm natureza de Buda? Como salvar este tipo de gente? Não quero abandonar ninguém. Todo mundo tem que ser salvo. É a filosofia do Bodhisattva. Esta filosofia do Bodhisattva é incansável. Co-rajosa. A qualquer tipo de dificuldade pode-se fazer frente. Sozinho. Esta é a dignidade dos monges. Se não a tiver, é melhor voltar para casa. Morar com sua família, lar, aquela comida quentinha, música, aquele sorriso bonito, é bom. Depois daquela grande negação, vem esta grande aceitação, a constatação de que o mundo é todo maravilhoso. Tudo é ma-ravilhoso. Depois de passar por isto, nós sentimos claramente. Senão, com pouco treina-mento, brigando sempre, vamos nos separar. Deixemos de brincar com estas coisas agora. O Shobogenzo, a prática incessante, é para isto, não é para saber de nada mais. Zen, aqueles koans interessantes, isto não é Zen de salão, tomando chá, não, é algo que parece estar a-brindo a sua barriga, saindo dos intestinos e andando, arrastando-se a dor. Senão é melhor ficar parado e viver neste mundo. Tomar banho, ir para o cinema.

Temos um pouco mais de tempo. Têm perguntas? Não sei se entenderam, perguntem para não haver mal entendidos nesta parte de renúncia ao mundo. Por favor, as senhoras aqui ficam muito preocupadas, não é isto. O Budismo Mahayana é muito amplo com a compreensão de suas famílias. Podem seguir o Caminho, não necessariamente sozinhos. O caminho é muito amplo, muito amplo, pode-se ir com 2, com 3, com um grupo, todos juntos. Mas algumas pessoas, realmente poucas, levaram aquele susto... estes homens não tem jeito, despertam. Se não houver perguntas sobre este assunto muito sério... Desculpe, mas temos que encarar esta seriedade, porque está no texto.

Pergunta: Que diferença faz saber destas coisas, se na hora de vivê-las dói para todo mundo?

Resposta: Este treinamento Zen é "para estes poucos" que levam a sério. Zen é uma coisa nova aqui, mas aquele que o procura têm problemas, problemas psicológicos de certa maneira, é um doente, apesar de ter saúde mental, física e intelectual, mas mesmo assim é um doente. Doente de vida verdadeira. Querem viver realmente. Assim, com a necessidade, começam a procurar várias coisas e por acaso alguns chegam até o Zen. Por isto, dentro do Zen, há esta loucura, essa dureza, porque o treinamento dói, é duro. Mas quem procura este Caminho, está escrito no texto, os seus problemas doem mais ainda. Então estas dores não se comparam. Por isto aguenta-se e vai-se muito mais além. Para frente. Este treinamento é difícil. Mas realmente, a pessoa sabe o valor. As coisas verdadeiras não são ganhas com tanta facilidade . São difíceis. Por isto o treinamento é simbolizado por pérolas que estão no queixo do dragão. Se a pessoa precisa ganhar estas pérolas, tem que lutar com este dragão. São Jorge, contra este dragão ou demônio, é você mesmo. Se conseguir ganhar do dragão, se transforma em um Deus, um Deus e guardião ao mesmo tempo. Este corpo pode fazer muita coisa. Bobagens, besteiras com o karma, mas ao mesmo tempo com este corpo nós podemos fazer muitos atos bons. Isto é transformação. Encontrando-nos com o Caminho, com este ensinamento, começamos a mudar. As células, carnes, músculos, os ossos, se transformam no corpo de Buddha. Nós temos o corpo do Buddha cósmico, mas ainda é muito simples, precisa se transformar realmente, manifestar a beleza de Buddha. Ainda fazemos muita besteira. Mas o treinamento é um passo depois do outro.


Pergunta: O que significa que nós termos que lutar contra o dragão?

Resposta: Esta luta é porque nós temos ignorâncias incontáveis. Isto desde muito tempo atrás, e por isto estas raízes são muito fortes. Tem que cortar . Esta é a luta. A-gora, o Budismo Mahayana, o Zen, vai muito mais além: tenta sem cortar estas ignorâncias, vivendo neste mundo com família, com mulheres, com filhos, com pai e mãe realizar a ilu-minação. Esta é que é a libertação verdadeira. O Zen é assim. Dentro do Shingon esotérico é assim. Aceitação. Se uma pessoa resolveu tudo e se iluminou, vem aquela exclamação do Buda: "Que maravilhoso! Todas as coisas são douradas! Todos os seres têm a na-tureza de Buddha. Céu, terra, todos os seres viventes realizaram a iluminação comigo. Quem tem ouvido, escuta o meu sermão!" Como o orvalho do céu: quem toma uma vez deste orvalho, nunca mais morrerá. Quem está sofrendo com esta mortalidade, esta impermanência, quem encontra este ensinamento, é como tomar estas gotas do céu. Este é o ensinamento do Buddha. Aí nunca se perderá a vida. Todo mundo tem medo de doença, envelhecimento e morte. Então, para quem pode ter esta pureza, esta tranqüilidade absolu-ta, esta é a melhor coisa que existe. Não são somente os bens materiais que contam, mas é dar segurança e vida, este é o trabalho dos monges. Com esta missão, o egoísmo de seguir o Caminho sozinho deve ser contrabalançado. Por isto, este é um trabalho de herói. Como um herói, lutando contra milhões de inimigos, pode-se mais ganhar para si mesmo. É um trabalho muito difícil. É isto.

 

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