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Mística Cristã e Zen: Porque Deus se fez homem? A Rosa!

Palestra proferida pelo Mestre Ryotan Tokuda na Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Ouro Preto, em 11 de dezembro de 1985. Promoção do Instituto de Arte e Cultura (UFOP).


Alguém de certa feita afirmou o seguinte: "Ocidente é Ocidente, enquanto que Oriente é Oriente e tão certo quanto estou aqui, nunca haverão de se encontrar."Mas um professor universitário americano, pesquisador de misticismo disse: "No fundo toda experiência mística é uma coisa só, mas quando aquele que teve aquele experiência tenta explicá-la em sua própria língua, se utiliza então de sua própria religião." Eis porque exatamente esta experiência mística, apesar de poder ser expressa com diferenças de língua, religião, cultura, tradições, costumes, países, épocas, etc., apresenta basicamente as mesmíssimas características. Uma destas características justamente é a inefabilidade, isto é, a dificuldade de se encontrar um meio de exprimir e de explicar aquilo que foi vivenciado. Mesmo assim não se pode deixar de transmitir aquela alegria da experiência para as demais pessoas, pois isto não é uma alegria deste mundo no qual estamos vivendo, mas uma experiência divina e sagrada.

Em 1963, através do Concílio Vaticano II., a Igreja Católica começou a procurar uma forma de diálogo com outras religiões, e assim se iniciou o intercâmbio espiritual entre o Cristianismo e o Zen-Budismo. Eu trouxe aqui comigo alguns livros de autores como Durkheim, Alan Watts, Thomas Merton (monge trapista), mas além destes outros padres e teólogos estão também tentando estabelecer pontes entre o Zen e o Cristianismo. Hoje em dia estamos precisando de um grande diálogo entre todas as religiões para tornar possível este entendimento recíproco e possibilitar um entendimento entre os praticantes das diversas correntes e religiões. Hoje realmente nós temos condições para tal. Em 1981, sessenta monges Zen (Rinzai e Soto), foram convidados para um convento na Alemanha, para ali rezar e meditar juntos, pois com este treinamento Zen, dizem, é possível se obter aquela experiência de união com Deus mais facilmente.

Vamos agora tomar os discursos de um Mestre Zen, Joshu e um Místico cristão, Meister Eckhart, para examinarmos os paralelos entre estes dois tipos de pensamento. Daisetz Suzuki afirmou de certa feita: "A experiência de Meister Eckhart está bem próxima do Zen, ele teve a experiência Zen."

Um monge perguntou a Joshu (Mestre Zen chinês, que viveu de 778-897):

"Porque Bodidharma veio à China da Índia?"

Ao que imediatamente Joshu disse:

"O carvalho do jardim da frente."

Meister Eckhart, místico cristão alemão (1260-1327) perguntou:

"Porque Deus se tornou homem?"

Eckhart respondeu a si próprio:

"Deus se fez homem para que o homem pudesse ser igual ao filho único de Deus."

Existem muitos motivos que levam as pessoas a rezar a Deus, mas o primeiro que geralmente pedem é uma solução imediata para seus problemas particulares, suas dificuldades, ou melhoria de saúde, etc. Este contudo não é o trabalho de Deus. Isto, na realidade, neste mundo de Deus, é como se estar ainda no jardim de infância e tal qual uma criança tudo que a pessoa quer é receber o tempo todo. Mas a verdade é que o trabalho de Deus nada tem a ver com isto. Estes que o fazem querem apenas satisfazer seus desejos como seres humanos. O mundo de Deus nada tem a ver com isto, mas a maioria das pessoas procura Deus por esta exata razão: positivamente este não é o autêntico amor a Deus.

Ekhart disse: "Quando Deus fez toda a criação Ele não teve um porque, um objetivo em mente, muito pelo contrário, Ele agiu por agir, sem uma meta qualquer a qual se abstivesse. O fato é que tantas pessoas amam a Deus como se ama a uma vaca, esperando com isto carne e leite, esperando toda espécie de benefícios. Este entretanto não é o verdadeiro amor a Deus."

Quando a pessoa finalmente sai deste jardim de infância, passa em seguida para o segundo colégio que é mais ou menos quando começa a regularizar sua vida para não sair fora, e desta maneira vai segurando, segurando, mas não por sua própria vontade ainda. Pouco depois, já entra no Ginásio ou Científico, e já tem então a capacidade de poder ser grato, muito obrigado por viver hoje com este pão e leite, mas já no Científico começa a assumir aquela postura de crítico, aquela sinceridade do crítico, critica tudo e todos, e de tudo duvida. Já não mais acredita no mestre nem muito menos em seus pais. Neste momento ele simplesmente dá as costas para a luz, talvez que não se encontre longe, talvez esteja bem próximo, apenas tem sua cabeça voltada para trás. Assim entra para a Faculdade numa fase de procura intensa a Deus, e não mais procura algo por medo, querendo mesmo é encontrar a Deus dentro de si mesmo, como dizia um místico cristão, a união com Deus, eu e Deus como uma só coisa, isto é, uma experiência mística.

Todo fundador de Ordem religiosa Cristã passou por este tipo de experiência, e levantou sua Ordem sentindo sua missão, trabalhando para tal incansavelmente. Neste momento é crucial que se volte para dentro de si mesmo, e é necessário se passar por certas purificações, precisa passar por aquela noite escura da alma de São João da Cruz. Em seguida a isto, tem que ter aquela experiência mística, do Zen ou do Cristianismo, ou seja tem que passar por aquela união com Deus, para mais tarde procurar transmitir aos outros aquela alegria e emoção desta experiência, mas tem dificuldades de expressar com meras palavras aquilo que foi visto, procurando então através da poesia, de gestos ou algumas vezes de maneira paradoxal exprimir aquilo que experimentou, para romper as limitações da linguagem. O mundo funciona sempre através daquelas coisas que são reconhecidas por nome e forma, tais como uma mesa, um relógio, etc., e com isto a pessoa entende o que o outro está tentando dizer, mas as palavras trazem na verdade um montão de confusão, com o nome e forma, e desta maneira é que não vemos as coisas exatamente como elas são, porque uma mesa, o que vem a ser isto? A mesa na verdade não existe. Como não existe? Não existe! Isto chamamos de mesa, mas na verdade o que é isto? É madeira, madeira com forma de mesa, então dizemos mesa, mas na verdade não é mesa, e sim tão somente um nome. Na verdade não é mesa, é madeira, tábuas, e mesmo assim a madeira, as tábuas, também por sua vez não existem, são apenas moléculas. Estas por sua vez se dividem em partículas atômicas e subatômicas, hoje em dia são conhecidos mais de cem átomos, tais como hidrogênio, carbono, oxigênio, etc., com aquela força de coesão; por sua vez os átomos se dividem em núcleo, eléctrons, protons e estas partículas por sua vez podem ser subdivididas mais ainda, e assim até onde vamos? O que realmente existe? Não existe nada, tudo é Vazio: Deus criou este mundo do pó, e a verdade é somente esta, é isto aí.

Meister Eckhart, místico cristão indagou: "Por que Deus se tornou homem?"

Eckhart respondeu a si mesmo: "Deus não tem um porque."

Com sua própria experiência mística, Eckhart disse "Deus não tem um porque". Isto nós podemos entender, Deus não tem porque. De certa feita um monge também perguntou: "Porque Bodidharma veio à China?" (Bodidharma foi um mestre Hindu que transmitiu o Budismo para a China). Mestre Dai Bai, que faleceu em 831, respondeu da seguinte forma: "A vinda de Bodidharma à China não teve qualquer objetivo que fosse."Por que isto ocorre assim, algo que não tem qualquer objetivo que seja?

Um outro Mestre Zen, da linha Rinzai acrescentou a este diálogo: "Se tivesse havido qualquer motivo, então Bodidharma sequer poderia salvar a si mesmo." Porque isto? "Quando o Buda Gautama ganhou a iluminação, ao mesmo tempo todo mundo também ganhou a iluminação."

É por esta razão que não existe motivo algum, não precisa vir da Índia, exatamente nós estamos falando daquele mundo no qual não existe ir ou vir, que não tem Ocidente nem Oriente, que não tem Índia nem China, justamente porque o Universo é uma só Mente, e não duas coisas separadas.Assim é a experiência mística, a união com Deus, porque este mundo é unicamente Deus, e fora disto não existe nada mais. Nestas explicações que foram dadas, Deus não tem porque. Então porque Deus se tornou homem? Também não tem porque.

Assim, nós vamos mergulhando, mergulhando, e chegamos muito próximo, muito próximo mesmo ao centro da questão, mas mesmo assim ainda tem um restinho que sobra aqui. Por que? Para chegarmos até aqui, precisamos dar mais um passo à frente.

Tomemos um outro místico cristão alemão, que foi fortemente influenciado por Meister Eckhart, Angelus Silesius, que disse o seguinte: "A rosa não tem porque, floresce porque floresce, ela não se preocupa consigo mesma, ela não deseja ser vista. A rosa que vocês vêem com seus olhos físicos, em Deus está florida por toda Eternidade."Não é lindo? Considerando agora este poema, tentemos mergulhar mais um pouco além. Aqui nos trópicos, na Amazônia, ou mesmo aqui no fundo da floresta podemos encontrar aquelas maravilhosas orquídeas, que dão aqueles cachinhos; talvez que naquela floresta ninguém até agora tenha chegado, é virgem, e de repente no fundo da floresta se acha esta flor, orquídea, onde ali esteve durante séculos e nunca até agora tinha sido vista, tão bonita, e agora a pessoa a vê e quer levar para casa egoísticamente, arrancando as raízes, e deixando a natureza danificada; somente Deus pode criar estas coisas, mas uma vez mortas nunca mais voltam; assim, quantos animais, quantas plantas morrem com estas queimadas das florestas, com a natureza que é arrasada, mas isto nada tem a ver com este assunto que ora tratamos.

As palavras de Angelus Silesius: "A rosa não tem porque... está florida em Deus por toda eternidade." Seria bonito se nós pudéssemos viver como uma rosa destas, não acham? Mas para nossa vida dependemos de outras pessoas, muitas vezes, e não podemos ser sós. Eckhart disse: "Este mundo é só Deus, único e absoluto, além do qual nada existe. Mesmo um mosquito quando é visto em Deus é mais sublime que um anjo."

Vamos agora mergulhar num perigo, mergulhando dentro deste koan. Perguntemos pois novamente: "Porque Deus se fez homem? A rosa." Não sei se vocês todos concordam com esta colocação, agora a pergunta e a resposta ficam iguais a "Para que Bodidharma veio à China? O carvalho no jardim da frente."Agora sobra apenas uma pontinha, se cortar isto o que acontece? Isto é cristão demais, "Criatura-Criador, Homem-Deus, rosa, mosquito, tudo isto ainda tem duas coisas separadas; se eliminarmos isto, não tem mais Deus criador, não tem mais criaturas, fica uma coisa só, ao mesmo tempo homem e Deus; porque Deus se tornou homem? Com isto quem está perguntando e quem está respondendo são duas pessoas. Existe um koan, "Antes que seus pais tivessem nascido, qual era o seu rosto original?" Porque quando se é concebido existe dentro da pessoa mais de 30 bilhões de vidas passadas, Karma depositado que vem de meu pai e de minha mãe; então para nos liberarmos deste Karma, temos que ir além de nosso pai e de nossa mãe; acontece que pai e mãe também tem pai e mãe, e a Bíblia vai até Adão e Eva. Então, antes que Deus criasse Adão e Eva, qual era o seu rosto original? Antes que Deus criasse este mundo, Deus não tinha nome de Deus, claro, ainda não havia criado, o mundo ainda não existia, então não existia nem o nome de Deus. O Cristianismo fala em Trindade, Deus-Pai, Deus-Filho e Espírito Santo, mas Eckhart fala até em Godheim, isto é, origem de Deus, origem da Trindade, uma coisa além, antes que tivesse sido criado este mundo, antes que céu e terra tivessem se separado, dia e noite, esta dualidade, havia então o mundo do Caos, mas de onde vem Deus? De onde viemos nós? Através da meditação, mergulhando, não como uma simples regressão até o momento em que tivemos o parto com nossa mãe, mas sim mergulhando em regressão de regressão em regressão, até aquele momento do passado sem começo, este é o trabalho da meditação, trabalho da purificação, entrando na noite escura, primeiro intelectualmente, emocionalmente, espiritualmente, abandonando tudo, purificando, purificando, purificando, este é o processo. Enquanto existir experiência religiosa, sagrada, dentro de várias linhas de religião nós podemos encontrar este tipo de meditação, este rezar interno, isto é preparação para receber a experiência religiosa. Existem vários métodos, como os exercícios de Ignácio de Loyola, ou outras práticas de meditação, ou Yoga etc., diferentes processos mas todos mostrando os mesmos aspectos. As vezes os objectivos são diferentes mas até um certo ponto o processo espiritual interno é quase o mesmo e finalmente aparecerão aspectos desta experiência semelhantes, apesar dos países poderem ser diferentes, com línguas diferentes, termos religiosos diferentes, mas é a mesma experiência que está tentando ser expressa.

"Porque Deus se fez homem? A rosa." Como vimos inicialmente, no princípio podemos nos assustar, mas quando vemos uma rosa, mergulhamos dentro desta flor, sentindo aquele odor sutil, então desaparece seu corpo de rosa e o mundo inteiro se torna aquele perfume da rosa, por isto temos isto: "a rosa."Desta mesma forma quando olhamos o Pico do Itacolomy existe um mundo no qual esta montanha tem sua existência, mas aqui são ainda duas coisas separadas, mas de repente, eu e o pico desaparecemos, nos tornando uma só coisa com Deus, e até mesmo esta união desaparece. O treinamento conhecido como "Kojo" consiste nisto, esquecer esta própria união, ir mais além disto, nem mesmo o Uno existe mais, apenas o vazio, mas este vazio não é o nihilismo, é o fundo de nossa existência, de onde vem aquela energia enorme de realização, criatividade absoluta, onde o momento é eterno, absoluto e perfeito.Então, aqui novamente diz Eckhart: "Temos que nos desligar de tudo."

Enquanto que o Mestre diz de sua parte: "Na verdade temos que nos desligar do próprio desligamento."Existe este um, temos que nos desligar deste próprio uno, precisamos abandonar muitas coisas, sujeiras.Um monge perguntou: "Mas eu já me desliguei de tudo, que devo então fazer?" O mestre disse então: "Deixe então este desligamento!". Mas Mestre, eu já disse que a tudo deixei, é sobre isto que desejo que te manifestes." "Então leve embora!""Onde tem Buda não pare; onde não tem Buda, passe rápido.""Quando tivermos fome, devemos comer; quando tivermos sono, devemos dormir."A afirmação surge da negação completa. Justamente esta idéia de que "eu já deixei, já desliguei," ainda é algo que existe na consciência. Temos pois que superar isto ainda, ir mais além. A consciência em nós é muito forte, o apego ao eu é muito forte, por isso tem que esquecer; esquecendo se fica vazio, não existe mais nada, neste momento meu corpo se abre de repente, até o fim do Universo, com isto nós nos tornamos Mahatma, Grande Eu, Eu verdadeiro, esse Eu já não mais é interno nem externo, porque é uma coisa só. Esta é uma experiência religiosa que o Zen procura como primeira experiência. Em seguida dentro da vida quotidiana nós realizamos isto, nos concentrando no nosso próprio trabalho, mesmo que este seja um trabalho considerado inferior, ainda nestas condições realizando o máximo, aquela coisa primorosa e perfeita. Podemos então ser até mesmo faxineiras ou lavadeiras, fazendo tudo perfeitamente. Por isto talvez seja que os Japoneses conseguem este perfeccionismo, não somente em transístores, mas até mesmo na medicina, operações sem perder sequer um copinho que seja de sangue, através do estudo aplicado de anatomia, veias, etc., cortando daquela maneira, sem atingir as veias conseguem fazer cirurgias de precisão, isto não é apenas perfeccionismo, e isto já é criação, trabalho de Deus, glória de Deus. Através de nosso físico, nosso corpo, querendo mostrar aquilo que São Paulo afirmou:

"Não sou eu mesmo que estou vivendo, mas é Deus que está vivendo dentro de mim!"Assim, de nada valem cargos importantes, títulos, ser inteligente, ignorante, dentro de nossas próprias condições, com este corpo, com este físico, esta cara, com estas condições, agora, aqui!"Porque Daruma veio à China? O carvalho do jardim da frente.""Porque Deus se fez homem? A rosa."Meister Eckhart disse ainda: "Criatura, Criador, Deus e homem retornam ao 'Vazio de Deus,' ao fundo de Deus."O retorno ao Nada, não há mais Criatura nem Criador. A união com Deus está no fundo de Deus. Deus disse no Velho Testamento: "Aquele que me vê, morre." (Êxodo 33,20). Isto quer dizer duas coisas separadamente uma da outra, porque tem aquele vê e aquilo que é visto, neste caso, Deus. Vendo Deus com este olho físico, desta maneira, então haverão duas coisas separadas, eu e Deus; não se pode ver Deus desta maneira, a única forma que se pode realmente ver Deus é intimamente, temos que nos tornar Deus. E agora? O Cristianismo não menciona jamais que o homem vire Deus. Por causa deste item, foi que a inquisição perseguiu Meister Eckhart. Depois que Meister Eckhart morreu, o Vaticano proibiu todos seus livros, mas muitos padres, freiras e leigos, adeptos que ouviram seus sermões naquela época, anotaram tudo e guardaram, parte em latim e parte em alemão. Quando ele dava aqueles sermões, apesar de serem de difícil compreensão, com toda sua força, quem os ouvia lhes sentia a energia, e acompanhava, mergulhando no mundo dele, com isto gostavam e anotavam e assim isto permaneceu guardado em várias bibliotecas, possibilitando sua transmissão até hoje. Hoje em dia existem obras completas de Eckhart em língua alemã moderna bem como traduções em francês, inglês e espanhol. Em português só existe um livro de comentários e por isto Meister Eckhart não é tão conhecido dos brasileiros como São João da Cruz ou São Francisco de Assis.Então, o que significa ver Deus intimamente? Intimamente significa uma coisa só e quando uma coisa só existe, não são mais duas coisas separadas. Este reconhecimento é tão íntimo, não tem cerimônia, age por si só e inconscientemente. Então a pessoa se encontra dentro de Deus e Deus dentro dela.

Agora, Meister Eckhart tocou também no assunto de panteísmo. Deus existe dentro de todas as coisas, dos fenômenos deste mundo, seria isto então panteísmo? Contudo enquanto Meister Eckhart era vivo nada puderam provar contra ele. Quando ele faleceu, contudo, todas suas publicações foram proibidas e desapareceram, mas algumas restaram que foram preservadas da destruição. Esta proibição tinha muita a ver com politcagem da época, politicagem religiosa, Dominicanos, Franciscanos, etc... Era um assunto da Igreja, mas era tratado como uma coisa mundana qualquer, de interesses de grupos pelo poder, que nada tinha a ver na realidade com qualquer coisa religiosa, pois estamos aqui lidando com uma coisa sagrada.

Mas, voltando ao assunto, Eckhart expressa aquele estado como um deserto, um lugar onde não havia vida, nem aves no céu, nem animal na terra, nem plantas; deserto, aquele mundo do Caos como antes que Deus tivesse criado este mundo. Então não havia céu nem terra, mundo e Deus, ou seja, não havia ainda neste estado duas coisas separadas.

Praticantes de Zen procuram regressar a este mundo mergulhando dentro da Oitava Consciência (Alaya Vijnana), para fazerem um total limpeza, e de repente, enquanto fazem isto acontece a Grande Morte e voltando novamente para este mundo depois que isto ocorre, começam a dedicar suas vidas inteiras para ajudar este mundo, exatamente como fez Jesus, sacrificando sua própria vida e como Buda que peregrinava para pregar seus ensinamentos e como todos os grandes santos. No Budismo o deserto corresponde ao círculo, ao Vazio, querendo com isto o praticante Zen expressar que neste mundo não existem duas coisas separadas, nem olho nem natureza, nem vaca nem corda, nem chicote, tudo esquecido totalmente, na verdade neste momento é onde ocorre aquele estado de êxtase da experiência mística.

"Do deserto nasce a rosa, a reencarnação do Nada, a rosa então é tudo, samadi da rosa."

Uma vez morrendo, quando voltamos para a vida somos tudo. Por isto nós precisamos desta negação total, um trabalho doloroso, mas morrendo uma vez, nós nascemos para o Grande Nascimento e com isto nós conquistamos neste mundo a total liberdade, realizando nossa vida e cuidando de cada momento e de cada detalhe; por isto o Zen diz que o importante é apenas o aqui e o agora. Aqui-agora. Agora é eterno, aqui é absoluto, perfeito.

Um monge disse ao Mestre: "Esta flor, esta rosa orvalhada, não crês que isto seja o próprio Buda?"

Ao que o Mestre retorquiu: "Não fale asneiras!"

Porque nós estamos vendo aquela flor de madrugada com orvalho, branca, branca, e com isto cremos:

"Ah, agora entendo, isto é o próprio Buda!"

Por isto o Mestre falou, "Não digas tanta besteira!" Quando temos "rosa" isto mesmo já é o Buda, não precisamos repetir mais uma vez que "a rosa é Buda" pois isto seria como colocar o nome de Buda em cima de Buda. Quando uma flor está desabrochando isto já é Buda, realizando sua natureza, não precisamos apelidar isto de Buda, ou de nada mais, já que realiza sua natureza da maneira em que se manifesta. Se o fizéssemos isto seria como colocar uma cabeça em cima da cabeça. Quando o Mestre fala "Não fique dizendo besteiras!", ele está com isto mostrando a unidade, quando a flor está no seu estado de flor, isto já é Buda, quando estou assim como japonês, careca, sou Buda, não precisa comparar com cara de Brasileiro, cada um está em seu lugar, não existe bonito, feio, nem inferior, nem superior, cada um está em seu estado absoluto, porque você é tudo, isto é importante.

Um monge perguntou a Joshu: "Porque será que Bodidharma veio para a China?"

Joshu respondeu: "O carvalho no jardim da frente."

O monge insistiu: "Mestre, não dê uma resposta tão objetiva, mostrando a verdade através de objetos."

Ao que Joshu respondeu: "Não estou mostrando através de objetos."

O monge disse: "Então porque Daruma veio à China?"

Joshu respondeu, finalizando o diálogo: "O carvalho no jardim da frente."

Da primeira vez, quando ele disse "O carvalho no jardim da frente" o monge ficou olhando para o carvalho e comentou, perdido, "Mestre, não deves tentar mostrar a verdade através de objetos externos!" "Não estou mostrando a verdade através de objetos externos!" Isto é o que temos que entender, no momento em que ele falou isto, o mundo é somente o carvalho. Eu mesmo não existo, eu estou dentro do carvalho. Quando fico olhando o Pico do Itacolomy, naquele momento, o Pico do Itacolomy é tudo, ele é o Universo inteiro. Quando estamos passando por uma crise difícil, então temos todas aquelas dores, então neste momento o mundo é só dores, e este é o sabor da vida. Quando choramos, existe então somente o choro. Quando temos medo, então só o medo existe, não precisamos ter medo de ter medo. Desta maneira estaremos vivendo neste mundo de uma forma total.

Um outro monge perguntou a Joshu: "O carvalho tem a natureza de Buda?"

Joshu respondeu: "Tem."

O monge perguntou então: "Quando irá o carvalho se tornar Buda?"

Joshu respondeu: "Está esperando que o céu caia na terra."

O monge insistiu: "E quando exatamente é que o céu vai tombar na terra?"

Joshu encerrou o diálogo: "Está esperando que o carvalho se torne Buda."

Quando Buda ganhou a iluminação, disse o seguinte:

"Que maravilha, todos os seres vivos possuem esta natureza de Buda."

Estas palavras, "natureza de Buda," não indigitam possibilidade; querem ao contrário dizer que originalmente somos Buda. Buda mesmo, e este mundo é dourado. Se não o estamos vendo desta maneira, isto se deve ao fato que naquele momento devemos estar naquele estado de consciência contaminado, mas na verdade este mundo é maravilhoso, perfeito e absoluto.

Aqui podemos ver que ele está esperando o céu cair na terra e o carvalho se tornar Buda. Isto ocorre exatamente ao mesmo tempo. Num mosteiro no Japão, um mestre meditava durante o inverno e de repente o bambu, pesado com o peso da neve que caia, vergou e quebrou. Muitas vezes ele aguenta o peso e se levanta, mas de repente cai aquele montão de neve, tcháaaa, às vezes a ponta do galho entra dentro da neve e não agüenta mais, então com o peso excessivo o bambu quebra com aquele barulho. Por acaso naquele momento um pássaro qualquer cantou e o bambu quebrou. Este mestre então fez uma poesia com esta experiência, que dizia mais ou menos o seguinte: "Pássaro cantando e bambu quebrando, seu corpo e mente abandonando." Mas estas três coisas não são diferentes. Será que são três coisas diferentes como por exemplo, ao ouvir o passarinho cantando, através disto o bambu quebra, e através daquele barulho a pessoa abandona seu corpo e mente? Não, quando o pássaro canta, o bambu quebra, e nós também quebramos, simultaneamente: este é um momento de iluminação.

Mergulhando dentro da meditação, de repente o mundo inteiro desmorona, e neste momento abandonamos nosso egocentrismo e nossa consciência começa a se expandir até o fim do Universo. O Universo inteiro é nós mesmos e este é o momento da eternidade. Isto nós podemos nitidamente constatar através de nosso corpo. Esta é a iluminação Zen, Satori. Quem quiser experimentar isto, pode visitar lá em cima o Mosteiro do Morro de São Sebastião, mas talvez que isto vá custar um pouco ainda, hein?

Um mestre Zen chamado Kanzan, disse:

"Este caso do carvalho de Joshu tem a função do ladrão."

Hoje em dia a linhagem do Zen Rinzai no Japão quase toda descende deste mestre. Pouco depois desta época, chegou um grande mestre chinês e naquela época o Japão andava meio decadente, fraco, então a força deste mestre começou a se espalhar e quase conquistou todas as demais escolas de Zen Japonesas. Então este Mestre, que se chamava Inge, visitou o Mosteiro Myoshin-ji, querendo transformá-lo em seu Mosteiro. Perguntou: "Quem fundou este Mosteiro?" Responderam: "Mestre Kanzan." "Ele deixou algum livro importante?" "Não, não deixou escrito algum." Então ele começou a achar que seria fácil tomar aquele Mosteiro. "Mas ele deixou uma única frase," lhe disseram. "E que fase seria esta?" "Este caso do carvalho de Joshu tem a função do ladrão." Apenas estas palavras. Quando ouviu isto, Mestre Inge, grande mestre Zen chinês, se surpreendeu, pediu para visitar seu túmulo, fez reverências e se foi. Porque ele se surpreendeu? Porque um grande herói reconhece um outro herói.

Esta é pois uma conhecida técnica de Zen; "Roubar a comida de quem tem fome, roubar as vacas do pastor." "Este caso do carvalho de Joshu tem a função do ladrão." O que é a função de ladrão? Nós temos tantas coisas, tantas coisas que estão se depositando, guardando, e a elas estamos tão apegados. Então vem o ladrão e rouba tudo. Rouba tudo isto, isto é a limpeza total. A função do Mestre é roubar todo nosso primeiro conhecimento, mas isto é muito difícil, quanto mais se é inteligente, mais se retém isto, com ajuda da defesa das palavras e pensamentos. É como se diz, Zen de salão, com cházinho, cafézinho, desta maneira não se chega a lugar nenhum.

Hogen (Um Mestre Zen) perguntou a Kakuteshi, discípulo de Joshu:

"Dizem que seu mestre tem um caso do carvalho no jardim, isto é verdade?"

Ao que Kakuteshi respondeu:

"Meu mestre nunca disse nada disto. Por favor não fale mal dele."

Todo mundo conhecia este caso, porque foi que ele respondeu assim? Se respondesse sim, mestre e discípulo seriam duas coisas separadas. O discípulo teria apenas concordado com aquele história, aquela fofoca. Mas o discípulo tem que estar vivo, aqui, como seu próprio Mestre.

Então Hogen reconheceu:

"Você é mesmo um filhote de leão, ruge exatamente como seu pai."

Vemos pois que esta pergunta de Mestre Hogen não era uma pergunta simples e comum, tinha veneno na ponta da agulha escondida no algodão, era uma espécie de teste do monge. Se ele tivesse caído na armadilha facilmente, e dito por exemplo, "Sim, meu mestre tem este caso do carvalho no jardim da frente", o monge estaria morto. O mundo de Zen é assim. Tem que viver dinamicamente, não é fazendo fofoca de mestres passados, e sim simplesmente vivendo o aqui e o agora.

Alguma pergunta?

Pergunta: O Senhor falou da Rosa e falou da mesa, cadeira e do Buda. Porque o Buda precisou da mesa, porque o Senhor vai do Buda até a mesa?

Resposta: Quaisquer fenômenos deste mundo estão em seu estado completo, e não necessitam tomar nada emprestado, são totalmente independentes. Quando a mesa tem função de mesa, ela é Buda, absoluta, não depende de ninguém. É isto aí. O mesmo ocorre com a rosa. Todo mundo, todas as coisas estão em seus lugares, onde sempre deveriam estar. Por que você se preocupa tanto com esta dualidade, inferior ou superior?

Pergunta: O Senhor fala que neste momento agora tudo está perfeito. Ao mesmo tempo o Senhor fala que precisamos nos desapegar de tudo isto.

Resposta: Exatamente. Isto é como um círculo, não existe o apego, e então já há o desligamento.

Pergunta: O que é isto? Não está tudo bem?

Resposta: Tudo está bem, mas é preciso se desligar do próprio desligamento. Porque apesar de tudo estar maravilhoso, a pessoa na realidade está sofrendo. Então, com grande compaixão, o Buda voltou a este mundo real e por isto Bodidharma veio à China. Originalmente está tudo bem, mas eles vieram para mostrar que está tudo bem (sorri). Porque muita gente está sofrendo por causa da consciência de Alaya, mas no fundo, no fundo, em qualidade e quantidade a natureza do Buda é original, então reconhecer isto é satori. Não é que o Buda descobriu esta teoria, ele redescobriu. Antes de Buda, existia a lei do Universo, ele apenas descobriu e transmitiu.

Pergunta: Esta preocupação com a rosa. Porque a rosa?

Resposta: Uma rosa é uma rosa é uma rosa.

Mística Cristã e Zen: Porque Deus se fez homem? A Rosa!. Disponível em www.chalegre.com.br/zendo

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